CULTURA QUE CURA ENCERRA PRIMEIRA EDIÇÃO COM HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO

CULTURA QUE CURA ENCERRA PRIMEIRA EDIÇÃO COM HISTÓRIAS DE SUPERAÇÃO 

Projeto utilizou arte, acolhimento e diálogo para falar de saúde mental, combater ciclos de violência e incentivar a reconstrução de vidas

Após dois meses de atividades intensas em Sobradinho II, o projeto Cultura Que Cura concluiu sua primeira edição, deixando resultados transformadores para a comunidade. Voltada para pessoas em situação de vulnerabilidade social, a iniciativa utilizou a arte e a cultura como ferramentas para combater a violência doméstica, oferecendo o fortalecimento da autoestima, a reconstrução de vínculos familiares e a reflexão sobre temas como dependência química e saúde mental. 

Realizado em parceria com o CAPS AD de Sobradinho II, a Casa da Cidadania e o Instituto Incas, o projeto atendeu diretamente cerca de 200 pessoas por meio de oficinas de macramê, biojoias, geotinta, vasos ecológicos e escultura em argila. As atividades buscaram unir expressão artística, geração de renda, autoconhecimento e acolhimento emocional.

Ao longo dos encontros, participantes encontraram no fazer artístico uma oportunidade para reconstruir projetos de vida e desenvolver novas perspectivas para o futuro. Entre os resultados mais marcantes estão as conquistas de dois alunos do CAPS AD que viviam em situação de rua. Durante o período do projeto, ambos conseguiram acesso à rede de apoio social. Um deles conquistou sua própria moradia por meio do aluguel de um imóvel, enquanto o outro foi acolhido por uma casa abrigo.

Além disso, diversas mulheres atendidas passaram a enxergar no artesanato uma possibilidade concreta de autonomia financeira. Já os homens participantes das oficinas de escultura e vasos ecológicos demonstraram interesse em aprofundar os conhecimentos adquiridos e dar continuidade às atividades.

Segundo Kátia Nunes, coordenadora do projeto, o impacto mais importante não está apenas nas peças produzidas, mas nas mudanças percebidas pelos próprios alunos envolvidos. “Eles criaram laços, passaram a se conhecer melhor, desenvolveram respeito por si mesmos e pelos outros e descobriram talentos que muitas vezes estavam adormecidos. Ver essas pessoas se enxergando de uma forma diferente foi uma das maiores conquistas do projeto”, destaca.

O PAPEL DOS HOMENS NO ENFRENTAMENTO À VIOLÊNCIA

Um dos diferenciais do Cultura Que Cura foi a mobilização masculina para discutir violência doméstica e responsabilidade emocional. A partir da própria trajetória de superação da dependência química e da violência familiar, Tarcísio Rocha, idealizador e proponente do projeto, ministrou rodas de conversa e reflexões voltadas à conscientização de outros homens.

A proposta buscou estimular um olhar mais amplo sobre o problema, incentivando a busca por ajuda e o rompimento de ciclos de violência. “Uma questão que trabalhamos durante todo o projeto foi mostrar que homens e mulheres precisam buscar apoio e não se calar diante da violência. Muitos participantes relataram que ouvir um homem falar sobre suas fragilidades e sobre seu processo de transformação fez com que passassem a enxergar o tema de outra maneira”, explica Tarcísio.

Toda a ideia veio a partir da própria experiência de Tarcísio — pessoa com histórico de dependência — que, hoje, atua como agente de conscientização, promovendo um diálogo direto “de homem para homem”. Sua trajetória de superação se torna ferramenta para quebrar resistências e abrir espaço para reflexões sobre como o machismo e a dependência química impactam e fragilizam as relações familiares.

Tarcísio foi dependente químico por muitos anos e foi no apoio da família que encontrou forças para sair da drogadição. “O que me deu forças foi o apoio da minha família, pois não foi nada fácil. Eu precisei me amar, tive que ter essa briga pessoal comigo, entender o que é me amar, nunca tinha pegado os meus filhos no colo”, relembra o idealizador. Hoje, ele busca fortalecer a comunidade em que vive através de oficinas, palestras e relatando a sua própria vivência. 

Embora o ciclo de oficinas tenha chegado ao fim, os produtores afirmam que o trabalho está apenas começando. A equipe pretende manter contato com os grupos acompanhados durante o projeto e já prepara novas ações para ampliar o alcance da iniciativa. Entre os próximos passos estão a busca por novas fontes de financiamento e a formalização do Coletivo Origem Kandanga, criado por Kátia Nunes e Tarcísio Rocha a partir de suas próprias experiências de reconstrução de vida.

O encerramento da primeira edição será celebrado nesta quarta-feira (10) com uma mostra cultural aberta ao público, reunindo trabalhos produzidos pelos participantes e evidenciando o potencial da arte como instrumento de inclusão, acolhimento e reconstrução da dignidade humana. “O maior legado do Cultura Que Cura é mostrar que cada pessoa pode reconhecer seu valor e multiplicar seus talentos. Queremos continuar acompanhando essas trajetórias e fortalecendo esse movimento de transformação social através da cultura”, reflete a coordenadora. 

SERVIÇO

Encerramento do projeto Cultura que Cura

Data: Quarta-feira, 10 de junho

Local: Instituto Incas, Sobradinho II 

Horário: 14 horas 

Aberto ao público/Entrada gratuita 


Fonte: Suzanny Costa - Jornalista, redatora e assessora de comunicação.

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