Caso de jovem com autismo que passou a morar na rua em Sobradinho sensibiliza comunidade
Em situação de vulnerabilidade após a morte do pai, Samuel Oliveira espera por acolhimento especializado
Amigos do
jovem se organizaram para arrecadar doações e ajudá-lo. Foto: Material cedido
ao Jornal de Brasília.
O caso de Samuel Oliveira, um jovem de 19 anos
com Transtorno do Espectro Autista (TEA), sensibilizou a comunidade de
Sobradinho nos últimos dias. Após a morte do pai adotivo, Samuel precisou ser
afastado também da mãe por conta de agravações em condições da saúde mental
dele. O jovem então passou a viver em situação de rua, dependendo apenas da
escola e da caridade de moradores e amigos da região. A comunidade então se
mobilizou para que Samuel pudesse ter acesso ao acolhimento e acompanhamento
profissional adequado.
Samuel Oliveira passou a morar na rua após a morte do pai e recebe ajuda
da comunidade para se manter. Foto: Material cedido ao Jornal de Brasília.
A advogada Nilcéia Macêdo tem acompanhado o
caso do jovem no intuito de conseguir com que Samuel tenha uma atenção especial
e qualificada. Ao Jornal de Brasília, ela contou que a condição psicológica
dele piorou depois da morte do pai, o deixando desestabilizado. A situação
continuou crescendo, e a mãe de Samuel precisou se afastar do filho por conta
de episódios de violência dele contra ela.
Ao JBr, o Tribunal de Justiça do Distrito
Federal e Territórios (TJDFT) informou que há um processo contra Samuel por
conta de um episódio de violência contra a mãe dele, mas que ainda está
pendente de um exame já que foi classificado como um incidente de insanidade
mental. O Instituto Médico Legal (IML) deve realizar esse exame. Demais
informações sobre a situação legal de Samuel não podem ser acessadas porque
estão em segredo de justiça, conforme destacou o Ministério Público do Distrito
Federal e Territórios (MPDFT).
Segundo Nilcéia, para que o processo de Samuel
possa caminhar, é necessário que o curador anterior do jovem – ou seja, a
pessoa que foi determinada para proteger Samuel porque devido à sua condição
não consegue gerir a vida de forma independente – assine a revogação da
curatela. A advogada explicou que o curador atual do jovem havia se
sensibilizado com o caso e decidiu prosseguir com a curatela. No entanto,
Samuel não se adaptou ao ambiente em que o curador vivia e a alternativa não
deu certo. “Nós não podemos representar ele se o curador que pediu a exoneração
não assinar a procuração”, detalhou a advogada.
Em meio a essas questões legais em andamento,
Samuel passou a morar na rua. Como ele ainda está na escola, era por lá que ele
conseguia o básico para sobreviver, como água e comida. O JBr questionou a
Secretaria de Desenvolvimento Social do DF (Sedes) sobre o caso do jovem. Em
nota, a pasta afirmou que Samuel é atualmente acompanhado pelo Centro de
Referência Especializado de Assistência Social (Creas) de Sobradinho. Ele
também foi atendido pelo Centro Pop, que recentemente solicitou uma vaga de
acolhimento, estando o caso em fase de avaliação.
A Sedes também informou que o jovem esteve
acolhido no Serviço de Acolhimento Institucional para Adultos e Famílias
(Saiafa) em agosto do ano passado. Nilcéia destacou, no entanto, que ele tem o
costume de evitar centros de acolhimento por traumas e que, apesar de ter 19
anos, a mentalidade dele ainda é de uma criança. A advogada ainda comentou que
o atual laudo do jovem aponta uma classificação de nível 1 relacionada ao TEA.
Acolhimento
Na rua na maior parte do tempo, amigos de
Samuel e moradores da região se mobilizaram para ajudar o rapaz. Uma das
pessoas que está empenhada nessa missão é Joelma de Souza, moradora da Quadra 4
de Sobradinho. Há cerca de duas semanas, ela abriga o jovem em casa para que
ele não continue mais na rua. “Desde então, todos os dias eu preparo o café da
manhã, organizo um lugar para ele descansar à noite, preparo a janta e procuro
oferecer aquilo que toda ‘criança’ merece: cuidado e acolhimento. Durante o dia
ele frequenta a escola, e quando retorna é para a minha casa que ele vai”,
contou.
Joelma de Souza passou a abrigar Samuel em sua casa até que o jovem
consiga um local adequado. Foto: Material cedido ao Jornal de Brasília.
No último domingo (7), um grupo de amigos se
reuniu e organizou uma ação social para arrecadar alimentos, roupas e outros
itens para ajudar o rapaz. “O Samuel está com a gente há apenas duas semanas,
mas nesse pouco tempo a comunidade já demonstrou um carinho enorme por ele. Foi
emocionante ver tantas pessoas se mobilizando para ajudá-lo”, comentou Joelma.
O apoio da comunidade e de Joelma é importante, mas o cuidado especializado é
indispensável para o jovem. A psicóloga Claudia Melo destacou que a necessidade
de apoio de uma pessoa com TEA varia muito de acordo com suas características
individuais e com o momento de vida que ela está vivendo.
“Uma pessoa classificada como nível 1 pode
apresentar boa autonomia em determinadas áreas, mas ainda enfrentar
dificuldades importantes em situações de estresse, mudanças bruscas ou perdas
significativas. Quando há eventos marcantes, como o falecimento de um familiar
próximo, rompimento de vínculos ou ausência de suporte social, pode ocorrer um
aumento importante da necessidade de cuidados e acompanhamento”, explicou a
psicóloga.
Para Claudia, nenhuma pessoa deveria enfrentar
momentos de grande sofrimento sozinha, e no caso das pessoas com TEA, a
existência de uma rede de apoio faz ainda mais diferença. A perda de um
cuidador, mudanças de moradia, rompimento de vínculos afetivos e dificuldades
de adaptação podem gerar impactos profundos na saúde mental e na capacidade de
organização da vida cotidiana. Por isso, o acolhimento precisa ir além de
oferecer um local para permanecer. É necessário construir vínculos, compreender
as necessidades individuais e garantir acompanhamento contínuo”, afirmou.
Segundo ela, uma rede articulada entre
família, saúde e assistência social aumenta as possibilidades de proteção,
inclusão e qualidade de vida. “Em situações de maior vulnerabilidade, essa rede
pode ser decisiva para evitar o agravamento do sofrimento psíquico e o
rompimento dos laços”, completou.
Rede do DF
A Sedes ressaltou que realiza acompanhamento
sistemático das pessoas em situação de rua no Distrito Federal, com atenção
especial à Quadra 1 de Sobradinho, por meio de 26 equipes do Serviço
Especializado em Abordagem Social (Seas). Segundo a pasta, Samuel já foi
abordado anteriormente por essas equipes, o que possibilitou seu encaminhamento
aos serviços da Sedes. Embora ele esteja atualmente sendo atendido pela rede,
com acompanhamento pelo Creas e solicitação de acolhimento via Centro Pop, o
local onde se encontra foi reinserido no itinerário da próxima rota para nova
abordagem.
A Sedes destacou também que a atuação do Seas
inclui o monitoramento contínuo dos atendimentos, com registro em prontuário e
abordagens frequentes. Durante essas ações, são ofertadas alternativas como
acolhimento em unidades permanentes e possibilidade de pernoite no Hotel
Social. Além disso, são disponibilizados benefícios e realizados
encaminhamentos para outras políticas públicas, como Justiça, Saúde e Trabalho.



Postar um comentário