Usar adoçante faz bem? Especialistas alertam para riscos e benefícios

 Usar adoçante faz bem? Especialistas alertam para riscos e benefícios

Entenda o que as evidências científicas mostram até agora sobre os potenciais benefícios e riscos do consumo desses produtos 

Que atire a primeira pedra quem nunca recorreu ao adoçante acreditando estar fazendo uma escolha mais inteligente para reduzir o consumo de açúcar. No consultório, essa cena é cada vez mais comum. Muitos pacientes chegam mais preocupados com a alimentação — seja após um diagnóstico, em busca de emagrecimento ou tentando prevenir doenças — e quase sempre o adoçante surge como a alternativa “mais saudável” e segura. A lógica parece simples, mas a realidade é mais complexa do que muita gente imagina.

 

Há estudos sérios que colocam esse hábito em xeque. Um dos mais recentes, feito com animais, observou alterações no intestino, no metabolismo da glicose e até na expressão de alguns genes após o consumo de adoçantes como sucralose e estévia. Em alguns casos, os efeitos nos genes apareceram também nas gerações seguintes. Isto é, passou para a próxima geração. Sim, isso apavora.

 

É o tipo de resultado que chama atenção, especialmente para quem trabalha com oncologia, quando a relação entre ambiente, metabolismo e genética é central. Mas é importante colocar as coisas no lugar: esses achados ainda estão longe de explicar o que acontece no corpo humano no dia a dia.

 

Algo parecido aconteceu quando o aspartame voltou às manchetes, classificado como “possivelmente carcinogênico para humanos” em 2023, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio da Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC). Essa classificação indica que existem evidências limitadas de associação com câncer, especificamente com carcinoma hepatocelular, um tipo de câncer de fígado, mas não estabelece uma relação causal definitiva.

 

Em paralelo, o Joint FAO/WHO Expert Committee on Food Additives, comitê científico internacional formado por especialistas independentes e coordenado pela OMS e pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), concluiu que não há evidências suficientes para alterar o limite de ingestão diária aceitável do aspartame, fixado em até 40 mg por quilo de peso corporal. Na prática, isso significa que o consumo dentro desses limites continua sendo considerado seguro por essas agências de saúde.

 

A oncologia, talvez mais do que outras áreas, aprendeu a desconfiar de respostas fáceis. O câncer não surge a partir de um único fator isolado. Ele é resultado de um acúmulo de exposições ao longo do tempo, combinando genética, estilo de vida, alimentação, peso corporal, consumo de álcool e tabagismo.

 

É nesse contexto que os adoçantes precisam ser analisados. Hoje, a ciência começa a explorar caminhos mais sutis, como a relação com o microbioma intestinal – esse ecossistema de bactérias e outros micro-organismos que participa da modulação do sistema imunológico, e que está diretamente ligado ao desenvolvimento de diversas doenças, incluindo o câncer.

 

Vários estudos mostram que adoçantes podem interferir nesse equilíbrio. Por exemplo, alguns trabalhos indicam que pacientes que vão iniciar imunoterapia para tratar um câncer como melanoma metastático e ingerem sucralose têm resultado inferior com o tratamento quando comparados àqueles que não ingerem sucralose. Foi demonstrado que isso decorre de alterações na microbiota intestinal e provavelmente se aplica a outros adoçantes também.

 

Outro estudo que avaliou especificamente o impacto de estévia no microbioma intestinal demonstrou que o uso de até 10 gotas por dia não altera o balanço do conjunto de bactérias que vive no intestino. Por agora, temos liberado o uso de estévia em baixas doses para pacientes que vão iniciar imunoterapia no tratamento do câncer.

 

A ciência raramente trabalha com certezas absolutas. O desafio está em conviver com essas zonas de dúvida sem transformar qualquer sinal em alarme — ou em desculpa para ignorar o que já sabemos.

 

Assim, a pergunta que importa no consultório não é se o paciente usa adoçante ou não, mas como é a rotina dele no geral. Uma mensagem sólida na oncologia, construída ao longo de décadas de evidência, não mudou: reduzir fatores de risco conhecidos ainda é o que mais faz diferença. Isso inclui manter o peso corporal saudável, ser fisicamente ativo, evitar o tabagismo, moderar o consumo de bebidas alcoólicas e priorizar uma alimentação baseada em alimentos in natura ou minimamente processados.


Fonte:Agenda Capital com informações do Estadão

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