Sob os Pés do Mundo transforma vivências de moradores de Sobradinho em arte

  Sob os Pés do Mundo transforma vivências de moradores de Sobradinho em arte

Projeto de Flavio Marzadro reúne experiências de quatro pessoas com deficiência, oficinas com estudantes e obras táteis que convidam o público a perceber a cidade de outras maneiras

A exposição Sob os Pés do Mundo: Arte e Inclusão chega ao Teatro de Sobradinho neste sábado (3) e reúne 15 obras táteis criadas a partir das memórias, dos percursos e das diferentes formas de perceber a cidade. Gratuita, a mostra segue até 2 de novembro e é resultado da segunda edição do projeto do artista visual, sociólogo e pesquisador italiano Flavio Marzadro, que acompanhou quatro moradores com deficiência em vivências por Sobradinho.

Ao longo do projeto, Flavio acompanhou quatro moradores com deficiência em caminhadas, conversas e deslocamentos pela região. Mais do que procurar paisagens para transformar em arte, ele passou a observar a cidade a partir das experiências de quem a vive de maneiras diferentes. “Cada pessoa, cada casa, cada família é um universo”, conta o artista. Para ele, entrar nesses espaços permitiu conhecer uma “cidade dentro da cidade”, formada por histórias e relações que nem sempre são percebidas por quem passa apenas pelas ruas.

Uma das descobertas veio nas caminhadas com Cícero Lopes, jornalista, ilustrador, designer gráfico e professor de desenho, de 59 anos. Os percursos pelo Parque dos Jequitibás e pela Avenida Contorno fizeram Flavio perceber a relação entre caminhada, natureza e bem-estar de uma maneira diferente. “Vi como pode servir para a regulação e como a pessoa pode se aproximar da natureza. A natureza abraça, relaxa a pessoa”, relata.

A experiência também levou o artista a conhecer outros espaços de Sobradinho, como igrejas, inclusive acompanhando um rito de uma igreja evangélica. Para ele, esses encontros foram ampliando a compreensão sobre o território e sobre as pessoas que compartilham aquele mesmo espaço.

O chão também conta histórias

Antes das vivências individuais, o projeto passou por escolas de Sobradinho. Cerca de 80 estudantes do Centro de Ensino Especial de Sobradinho (CEE 01) e do Centro de Ensino Médio de Sobradinho (CEM 02) participaram de oficinas sensoriais conduzidas por Flavio, com a colaboração da ceramista Geusa Joseph e de monitores.

A proposta era experimentar texturas com diferentes partes do corpo e perceber materiais que costumam passar despercebidos. Um tecido azul de veludo chamou a atenção dos alunos. Cascas e pedaços de madeira também despertaram curiosidade. Mas foi o próprio chão da escola que acabou se tornando uma das descobertas mais interessantes para o artista. “O aluno normalmente não olha o chão. O chão é uma coisa que ele pisa, mas não olha a textura, não olha como é feito”, explica.

Com a técnica da flotagem, utilizada por Flavio para registrar relevos e superfícies, os estudantes observaram as diferenças entre o piso do pátio, o jardim e outros espaços da escola. O que antes era apenas caminho passou a ser também matéria para criação.

A experiência faz parte da maneira como o artista entende o projeto, não se trata apenas de ensinar uma técnica, mas de estimular uma percepção mais ampla do ambiente.

Histórias que viram matéria

Nas vivências com Iasmyn de Souza Queiroz, Lúcia de Fátima Azevedo da Silva, Mitsuo Sato e Cícero Lopes, o processo ganhou uma dimensão mais pessoal. Cada participante apresentou ao artista seus lugares, memórias, gostos e formas de se relacionar com a cidade.

A partir dessas conversas e percursos, Flavio procurou identificar elementos que pudessem traduzir cada experiência em uma obra. “Não é um ensaio único. É uma construção que vai lindamente se formando durante os nossos encontros”, explica.

A natureza apareceu como um ponto comum entre diferentes histórias. O som das folhas sendo pisadas, as árvores e a sensação proporcionada pelos espaços verdes foram recorrentes nas conversas. A partir disso, Flavio criou uma série relacionada às folhas e compartilhou o trabalho com os participantes. Para o artista, o quadro é apenas a parte visível de um processo muito maior. “A obra de arte em si é só uma manifestação de uma vivência, de uma coisa que é muito mais profunda. É só uma coisa tangível de um invisível que é muito além do quadro em si”, afirma.

Os quadros táteis são produzidos a partir dos lugares e experiências vividos durante o projeto. As obras contam com títulos em Braille, letras ampliadas, audiodescrição por QR Code e paisagens sonoras registradas nos espaços que deram origem aos trabalhos. Em 14 de outubro, Flavio e os participantes das vivências também estarão no teatro para uma visita guiada.

Uma cidade percebida em outro ritmo

Na segunda edição do projeto, a arte não aparece apenas como resultado final. Ela está no caminho percorrido, nas conversas e na possibilidade de observar aquilo que costuma passar despercebido.

Para Flavio, conhecer essas diferentes formas de viver a cidade também significa questionar a ideia de uma experiência urbana considerada “normal”. As histórias dos participantes mostram outras maneiras de caminhar, se deslocar, perceber sons, texturas e espaços e construir relações afetivas com os lugares.

O artista espera que a exposição provoque justamente essa mudança de ritmo em quem visitar o teatro. “É um slowdown, um relaxar”, define. “Mostrar que a gente pode caminhar, pode ir devagarzinho, mas com isso pode ser tão feliz como todo mundo, apreciando as pequenas coisas da vida.”

Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), Sob os Pés do Mundo: Arte e Inclusão é idealizado por Flavio Marzadro e tem gestão do Instituto Lente Cultural.

A primeira edição do projeto ocorreu em 2025 e teve como protagonistas quatro pessoas cegas ou com baixa visão. Na ocasião, as experiências deram origem a uma exposição no Museu Nacional da República. Agora, em Sobradinho, o projeto amplia as possibilidades de percepção ao reunir participantes com diferentes deficiências e transformar suas relações com a cidade em obras que podem ser vistas, tocadas e ouvidas.

Serviço
Mostra Sob os pés do mundo
De 3/10 a 2/11
Das 8h às 12h (Das 14h às 18h, de segunda a sexta, e nos finais de semana em que o Teatro abrir) 
Teatro de Sobradinho (Q 12 – Sobradinho)
Classificação: Livre 
Entrada: franca

 

Fonte: Larissa Barros/Jornal de Brasilia , Foto: Divulgação

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